2019-06-09

Criaturas do Submundo


ABSINTO VI

E POR AQUELES DIAS vieram sobre a terra espantos, feras bersercais que entraram pelas roturas e fendas que se fizeram na cúpula.
2 Estas feras eram duma aparência sombria, de tal forma que metiam medo.
3 Criaturas das noites ancestrais e de tempos remotos, posto que os alicerces do inferno tremeram.
4 Criaturas dos reinos da morte, libertadas de mundos vizinhos, vieram à terra, famintos de carne e sedentos de sangue.
5 O seu aspecto eram o dos ogros e dos faunos, e de sátiros, e de bestas chifrudas das que se contam nos mitos antigos e nas estórias fantásticas.
6 Uns tinham cabeça como de sapo, e língua comprida com a qual capturavam a presa.
7 Uns eram como cavalos, dentre os quais havia sagitários; e outros, como insetos invulgarmente grandes.
8 Uns tinham dentes como os de ratos, como os dos grandes roedores.
9 Uns eram como os faunos e demônios da terra e do submundo; ao passo que outros, passando como homens, eram da linha dos psicopatas.
10 E havia também os serpentes e os cobras, aparência de répteis e de basiliscos.
11 Havia também um vulto de aspecto esguio, semelhante a uma menina, como das bacantes que ao Baco cirandavam.
12 Esta tinha orelhas pontudas; e as extremidades de suas orelhas eram afuniladas como as pontas duma cartolina, e voltavam-se elas para os lados da garota.
13 E tinha vestes como as duma amazona, e um ouroboros enroscadiço às voltas de cada tornozelo.
14 Esta viera pela fenda sul do domo, a qual dá para as terras dalém da Antártida, pelo caminho da Patagônia.
15 Vitório, um pequeno agricultor, vira-na passar pelas terras de seu sítio, três dias após a queda das potências celestes;
16 vindo a caminho de uns pés de uvas que detinha em seu patrimônio, de uns cachos de uvas Crimsom que davam pé em seu sítio.
17 Como de costume, vendo que era sozinha e que por lá estava à primeira vez, deixou-a em paz;
posto que assim mesmo agia, quando os pobres e desamparados das terras por ali passavam.
18 E ela seguiu adiante pelo caminho, tendo consigo alguns dos cachos.
19 Ele e sua mulher viram-na por detrás das cortinas da janela da sala, duma cabana no sítio onde moravam.
20 E a figura esguia prosseguiu pelo verde e o caminho por entre as montanhas, na floresta onde melhor se sentia.
21 Tendo passado por uma cidade há quase dia e meio, lá vira ninguém, senão uns arruaceiros que se aproveitavam do caos;
22 não havendo polícia, exército ou forças de guarda suficientes; além disso, muitos destes, dos da polícia e exércitos, também haviam morrido por causa do cataclisma, e dos consequentes eventos.
23 E tendo-a importunado os arruaceiros, ela os enfrentou e os matou um a um, fria e implacável como uma máquina.
24 E não só os matou, como também serviu-se de algo das entranhas deles.
25 E saíra daquela cidade após andar dezenas de quilômetros; e então prosseguia pela floresta, pelas densas matas.
26 Encontrando um rio pelo meio da mata, saltou-o por entre as árvores; deparando-se com outro num campo aberto, derrubou uma das árvores da campina e usou-a de ponte.
27 E em certo lugar, abrigados da chuva de plasma, havia equipamentos e toda sorte de aparelhos informáticos;
28 e uma equipe de cientistas lá se encontrava; seis pessoas, as quais manejavam aqueles equipamentos.
29 E trabalhavam eles para uma empresa de tecnologia, e eram entendidos em tecnologia e em toda a informática.
30 Depois do cataclisma, repararam as antenas, repuseram as câmeras danificadas; quando o plasma teve fim, arriscaram-se nas penhas e nos rochedos em sua manutenção.
31 Eles não tinham conhecimento, e nem os seus chefes, e nem os supervisores, do que os diretores sabiam a respeito dos eventos recentes, e de tudo o que poderia acontecer dentro em breve.
32 Pois há certas coisas mantidas em segredo até o dia de hoje, as quais os donos do mundo buscam diligentemente ocultar das massas.
33 Desse modo, os informáticos e cientistas que no abrigo dos equipamentos estavam de nada sabiam acerca do estranho evento.
34 E eles estavam, para o azar de eles mesmos, na rota da figura esguia.
35 Foi então que, passando por aquelas bandas, sentiu ela uma estranha atividade magnética.
36 Esta provinha das antenas, bem como das várias câmeras a vigiar o local, para que o pessoal desempenhasse os seus estudos;
37 e tais equipamentos, quando ligados, emitem algum campo eletromagnético em volta de si.
38 Um dos membros daquela equipe de cientistas, monitorando os parâmetros do lugar, viu uma anormalidade e avisou; trouxe-a a um dos colegas o que acontecia, e juntos analisaram aquilo.
39 Os computadores, recebendo o sinal das antenas, distorcido pela presença da criatura, começaram a mostrar incongruências na análise;
40 o que o vendo os dois que ali trabalhavam, puseram-se a procurar pela causa, buscando pelas câmeras das redondeza, cujas imagens também começaram a distorcer-se.
41 Eles viram, então, em meio à distorção da imagem de um dos monitores, uma aparência como a de uma garota de costas, vestida bizarramente.
42 Questionavam-se o porquê de uma garota estar ali, talvez, fugida de uma das cidades em meio à catástrofe; e do porquê de estar vestida assim.
43 Ela resolvera passar adiante, ignorando aquela interferência, e pôs-se a andar por entre a penha, subindo a colina; e assim o fez.
44 E eles a perderam de vista, e ela desapareceu dos monitores das câmeras, saltando de uma penha a outra; e assim seguiu pelo seu caminho.

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