2019-05-11

Os jardins suspensos


ABSINTO III

POR AQUELES DIAS Justine saía para os campos; sim, nos dias após o cataclisma, nos quais havia o pão que do céu descia.
2 Estava ela acompanhada de um de seus irmãos, o valente Fab, e de sua gêmea Caroline, e trazia consigo em seu colo a Beatorič.
3 E alongaram-se ela e sua gêmea Caroline para a campina, para os jardins suspensos de YAOHU que seu pai erguera em homenagem à mãe, junto à montanha dos rochedos.
4 Seu irmão, porém, permanecera na colina e contemplava a ambas enquanto se afastavam.
5 E vieram, caminho de uns três quilômetros pela campina, por entre os vales eivados de pedaços do domo à margem.
6 Vinham ela e a criança em seu colo, trazendo um cesto de vime, e Caroline trazia um par de cestos de vime;
7 e estes cestos, e mais alguns outros, eram os que Laura havia confeccionado.
8 E a criança estava assim: envolta em panos e agasalhos, num tipo de bolsa de pano com tiras de couro firmemente atadas ao corpo de Justine, como a bolsa das mamães canguru.
9 E cada uma delas pôs-se a recoher os flocos brancos que encontravam, e uma ou outra fruta, caída ou ainda no pé.
10 E Caroline fora pelo caminho plano; porém, Justine seguia pelo caminho dos jardins, e subiu ela pelos degraus dos jardins.
11 Ao subir para a plataforma ornada de orquídeas, petúnias e dentes-de-leão, avistou diante de si o vasto campo de lírios-aranha, os quais resplandeciam em beleza perante o sombrio luzir do céu.
12 E ao longe se via, através das fendas do céu, outros céus de mundos vizinhos [ou paralelos].
13 E extasiada em sua visão das maravilhas diante dos olhos, de YAOHU veio esta inspiração à menina, que assim pronunciou:
14 Grandes são as tuas obras, ó YAOHU, o Todo Poderoso; justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações.
15 Quem não te temerá? E quem não haverá de bendizer ao teu nome? Pois só o teu nome é santo, e todas as nações virão a ti e se prostrarão, pois teus atos de justiça se fizeram manifestos;
16 Pois abateste as cidades pecadoras, e transtornaste a rotina das cidades de transgressão.
17 As metrópoles ficaram destruídas, e destroços de prédios certamente se encontram por toda parte.
18 E desfizeste as obras de Vicel, e dos controladores de Darwin;
19 E puseste abaixo os insetos voadores de Vicel, os quais tinham canhões e com os quais atiravam;
20 E desfizeste a tecnologia e a magia da omnipresença dos cabeças de Vicel, e da polícia das cidades da China;
21 por meio das quais ao povo oprimiam, e os quais mantiveram o povo sob jugo severo;
22 pois até as traições eram incentivadas: pois cada qual dedurava aos governos o seu vizinho, e o seu parente, e o amigo, e o irmão, e isto em troca de generosas migalhas.
23 Que é o dinheiro, pois, se não migalhas? E o que serão as moedas de ouro e prata?
24 Pois por muitas que sejam, nunca satisfarão àqueles que as amam; e pela cobiça farão grandes e escandalosas cousas.
25 Por elas matar-se-ão uns aos outros, e por elas se odiarão com desprezo, ainda que seja isto entre os duma mesma casa.
26 Assim respondeu Justine a um urge que lhe surgiu, e a um fogo que apareceu dentro de si, quando viu os céus malhados, ainda que pelo reflexo dos olhos da criança em seu seio.

2019-04-22

Os Onze Dias



ABSINTO II

HOUVE um homem em Chednacia que teve dezessete filhas.
2 O nome da primeira era Laura; o da segunda, Valentina;
3 À terceira dera o nome de Helga; e à quarta, chamaram-na Clarisse.
4 E a quinta era Márcia, e a sexta, Juliana;
5 E a sétima, Jéssica; e a oitava, Letícia.
6 E depois lhe vieram Priscila Marta e Leocádia, Aline e Mara Alice,
7 Mirian e Elisabete, Caroline e Justine;
8 Por derradeira, viera-lhe Beatrice.
9 Teve este homem também oito varões, os quais lhe geriam os negócios nos dias de outrora.
10 E os seus nomes eram Marcos e Lupércio, Elias e João Lucas, Amós e Josias, Fábio e Natanael.
11 E as suas filhas vigiavam a casa e os seus arredores, depois do cataclisma celeste.
12 Deste, do qual se haviam abrigado todos eles, nas gargantas dum rochedo, sem ver o que lá fora se passava nos dias de fúria do céu,
13 os quais dizimaram os soldados voadores, e as grandes moscas que nos cidadãos revoltosos atiravam.
14 Estas moscas de metal tinham em si canhões e com eles faziam dano.
15 Por um tempo, os governos as manobravam, até que um principado usurpou-lhes o comando e entregou aos seus comandados o controle do enxame, e por meio deste dizimaram inúmeros homens.
16 Seus olhos não poupavam viúvas nem órfãos, meninas nem velhos, e nem mesmo as crianças de colo.
17 Um tal Vicel, governante da área na qual Junercio dantes habitava, mandara trazer duma terra distante uma destas moscas.
18 Da terra das cordas azuis, e dos pendentes de pano azuis e brancos; isto é, da terra onde se dera a Paixão da morte, e na qual se fizera presente nossa verdadeira Páscoa.
19 Quando, pois, estas moscas ameaçavam a vida em toda a terra, o plasma surgiu.
20 Veio este a derramar-se em profusão, e com ela grandes chuvas e pedras do céu.
21 E destruíram a estas moscas, e à base de comando que lhes emitia ordens.
22 E, depois deste tempo, houve uma grande fome, até que a relva de novo brotasse.
23 E o dia, então, nasceu, desprovido de seu sol, e não havia poente.
24 E depois da saraiva, fez-se um breve silêncio ensurdecido.
25 No dia seguinte, relva brotava com vigor, quando a fúria passara.
26 E Justine saíra aos campos a achar comida, quando encontrou neve sobre a relva, como pequenas bolinhas de algodão; e, tendo sede, provou-a.
27 E viu que era doce como o mel, e suave como o mel dos favos.
28 Levou, pois, alguma porção aos seus irmãos, os quais dele também provaram, vendo que sabia como pães de mel.
29 E o seu pai lhe perguntou: Filha, onde achaste isto?
30 Pelo que lhe respondeu a jovem: Está lá nos campos verdes, não muito longe; vem e vê.
31 E ele foi, e viu, e testemunhou o acontecido.
32 Finalmente, saíram eles da caverna, e eis que haviam inumeras pedras pelo chão, como de vidro, como dum vaso de vidro que, derribado ao chão, estilhaçara-se.
33 E no meio das pedras, no solo abrasado, crescia uma relva; e sobre esta havia estes flocos como de algodão, brancos como a neve.
34 Eles, pois, delas tomaram, e comeram, e assim mataram a fome.
35 E foi-lhes aquela neve por comida, todos os dias, até que a primeira colheita alcançaram de seus campos.
36 E um rio se-lhes nasceu, águas que brotavam da rocha, e este foi chamado Nalva.
37 Esta era a casa de Barečesia, nascida por entre as cinzas da labareda celeste.

2019-04-10

O grande edifício da humanidade


ABSINTO I

EIS UM PRÉDIO muito grande, muito amplo e com muitos andares, vários ambientes e salões, construído há mais de cinco mil anos.
2 Algumas partes, como a fachada frontal, saguão de entrada e alguns ambientes aparentam serem novos, embora grande parte da estrutura esteja seriamente comprometida.
3 Grande parte do prédio há muito não é pintada, nem conhece tinta.
4 Em muitos quartos há umidade e infiltração, e até alguns fios expostos.
5 Pelo que parece, um tremendo desleixo e irresponsabilidade da parte do síndico em não providenciar os devidos reparos elétricos. Não chamam nem mera consultoria da área.
6 Nas partes de padrão mais baixo, partes do reboco caem do teto e paredes devido a vazamentos e goteira, entretanto, ninguém parece dar a mínima; já se acostumaram com a miséria moral.
7 Lembrai a estrutura deste grande prédio velho, a qual já por demais comprometida.
8 Haverá chance para salvar esse prédio? E o que será necessário para fazê-lo?
9 O que você faria? Tentaria refazer o reboco? Tentaria reforçar a estrutura?
10 Pintá-lo-ia novamente? Pintá-lo-ia de uma cor diferente?
11 Arrancaria, simplesmente, pisos e azulejos, para aplicar novo revestimento? Refaria os contrapisos?
12 Impermeabilizaria os tetos? Quebraria paredes e trocaria o encanamento?
13 Tiraria da parede a fiação defeituosa? Removeria as velhas tomadas e as trocaria por novas?
14 Refaria os quadros de distribuição, isto é, a chave geral de cada apartamento, e instalaria equipamentos de proteção?
15 Colocaria lâmpadas mais duráveis e econômicas? Trocaria o gás encanado por chuveiros elétricos?
16 Retiraria os vasos com terra morta, com o resto de plantas secas, mortas há muito? Colocaria novas plantas em novos vasos no mesmo velho lugar?
17 Mesmo que a estrutura seja reforçada, nada há melhor do que algo novo do princípio ao fim, isto é, da fundação ao teto.
18 E, em breve, este prédio, carregado de desleixo e desatenção, colapsará.
19 Num momento, num abrir e fechar de olhos, sem chance de escapatória para quem nele se enconrrar ao tempo do terrível instante.
20 E os escombros que, porventura, restarem, servirão de abrigo por um breve tempo, para os poucos restantes.
21 Até que venha o tempo em que será demolido; com bombas será implodido, e com cataclismo em pó se desfará.
22 Terremotos acometer-lhe-ão os alicerces; tão fortes serão os quebradores, aos quais não poderão suportar.
23 Grandes ondas e vagas se assenhorearão de suas vigas, e suas estruturas pela massa das águas serão levadas.
24 E não se achará mais o seu lugar, senão um canto mais limpo, propício à agricultura e ao pastoreio.
25 E ali em paz habitará o teu povo: sim, meu Senhor, o Criador dos céus e da terra, entre os que escaparem das garras da besta e do sumo ditador das ordens ocultas; sim, daqueles que houverem sido preservados do dano das guerras e cataclismos.
26 Justine e Caroline, atentai a isto, e tu, ó Vento, toma nota para as gerações do porvir.
27 Em memória de Linus Pauling e de David Wilkerson, bem como de todos os que temem a Javé, os que se prostram diante do Eterno. Paz vos seja multiplicada.