2019-08-08

A estrela de duas pontas


ABSINTO X

EIS QUE O DIA VEM no qual a esperança nas riquezas será abalada; e os que no dinheiro confiam serão decepcionados.
2 A estrela de duas pontas voará sobre os céus: como estrela cadente voará; de si mesma fará conhecida aos filhos dos homens.
3 E ela se expandirá, e num olho se tornará, o qual há de emanar uma luz.
4 E os que a virem a ela se prostrarão e a adorarão; e farão com que sejam mortos todos quantos não se encurvarem diante ela.
5 Eis que vem o dia de Gesara, a qual acompanhada vai de suas miríades; eis que Nesara se apresentará em breve a todos os povos.
6 Os que moram nas cidades se atemorizarão, contemplarão com os próprios olhos a vindoura tirania.
7 Drones voarão pelo ar, por sobre as ruas e por sobre as casas, e por entre os prédios, e por cima dos edifícios; pelas janelas entrarão como ladrão.
8 Eles tomarão nota de tudo e gravarão, e logo o farão saber às milícias iníquas o que se faz às escondidas.
9 E chamarão em reforço outra força; e os enforceiros da lei virão e se assenhorarão de quem às leis das cidades transgredir.
10 E as antenas de raios serão instaladas; e raio mortífero sairá delas e aos pássaros derrubarão e aos pássaros matarão.
11 Sim, das torres novas que em breve serão plantadas, que em breve serão montadas, sobre cujos alicerces serão levantadas;
12 e a estrela de cinco pontas emanará de si raios fortes, e raios mortíferos deles sairá.
13 E todo o povo o verá e perguntará por semelhante cousa; e dir-lhe-ão os atalaias, aos quais dantes desprezaram, se acaso puderem ser achados.
14 E alguns dentre eles, enfim, ao marasquino darão lembrança; e se aperceberão de que em verdade da verdade se lhes falava.
15 Bem como à prisca e ao alphonso, quando lhes diziam acerca do vindouro cataclisma, o qual já é passado.
16 Já não basta vós, ó mandatários do mundo, que afligis a saúde dos povos da terra com o raio das estrelas de quatro pontas?
17 Dias virão, nos quais de ninguém terei dó, e a ninguém mostrarei simpatia, nem de ninguém terei empatia; sim, de nenhum daqueles que fazem o mal.
18 Ser-lhes-ei porém por anjo da morte e por agente da destruição, e por soldado do poço do abismo, e por cavaleiro das trevas, e por juiz de suas maldades, e por executor das sentenças.
19 E esmigalharei ao que restar do plasma; e ao que não alcançar, dentre os que se escondem nas profundezas da terra, o meu fogo consumidor.



2019-07-14

A queda das urbes: o escape de Ariadne


ABSINTO IX

BUSCAVA, pois, Ariadne, uma forma de escapar daquele caos; e intentava seguir para a floresta.
2 Estava no litoral, e o bramido do mar era de um aspecto sombrio, o prenúncio de uma catástrofe.
3 Horas depois do grande tremor, descera ela do prédio, depois de tomar para si mantimento.
4 E levava consigo uma mochila com o que podia, não com muitos pesos.
5 E, saindo às ruas, o caos por toda parte, e ruas eivadas de destroços.
6 No dia anterior deixara seu carro no estacionamento; assim, pois, para lá seguiu.
7 E o lugar estava abandonado, pois de todos que lá estiveram nenhum ficou.
8 Muitos dos veículos haviam sido atingidos, inclusive o dela próprio;
9 vendo, porém, que os danos não eram extensos a ponto de inutilizá-lo, removeu-os da caçamba da picape; e assim entrou e o acionou.
10 Buscava uma rota para sair da cidade; todavia, o dispositivo orientador não mais funcionava.
11 Seguiu por uma rota, como que por instinto, para afastar-se do litoral.
12 Teve de seguir pelas bordas da estrada, e mesmo por fora dela; por entre os destroços do caos.
13 Com muita dificuldade seguiu, até que lhe faltou combustível; vendo que não mais havia, tomou as bolsas e, largando mão do carro, seguiu para as montanhas.
14 Tomou o caminho de uma linha de trem que encontrou e por ela seguiu; e não havia trens a circular.
15 Seguiu por horas até encontrar um refúgio numa rocha, e por ali ficou.
16 E um homem de vestes brancas resplandecia por entre as paragens;
17 Pelo que, vendo ele a moça refugiada por entre as penhas, logo encobriu a sua glória; e, aproximando-se dela, notou que dormia.
18 Tocou-a, pois, à testa, aprofundando-lhe o sono, para que nem tão cedo despertasse.
19 E a carregou nos braços, bem como às bolsas, e a levou dali, por quase mil quilômetros.
20 E a trouxe a uma terra das montanhas, próximo da morada de Chednacia; e pô-la ao pé duma árvore, junto ao rochedo maior; e ali a deixou e se foi.

2019-06-23

A Origem dos Porcos


ABSINTO VIII

EM CERTA Cidade havia um costume, e um rito fora estabelecido desde o tempo ancestral;
2 o qual fazia-se em certos dias e horas, obedecendo a um complexo e intrincado calendário astrológico.
3 Os numerosos pontos de luz do céu lhes guiavam nos ritos, e a colheita dos frutos da terra seguia sua orientação.
4 E eles se prostravam diante do sol, da lua e de todo o exército do céu, e lhes ofereciam libações, e faziam-lhes bolos de frutas.
5 Houve uma cidade na qual faziam cousas bárbaras, das quais até o nominá-las é torpe.
6 Houve uma cidade na qual corriam soltos o folguedo e o bacanal.
7 Houve uma cidade, entregue aos bacanais, nos quais até os seus concidadãos com as bestas do campo se deitavam;
8 e em prosseguir, e em muito se entregar às paixões infames, de entre eles surgiam quimeras.
9 Destes folguedos foi a origem, segundo se diz, e o nascedouro das criaturas da noite.
10 Serpentes sábias da terra, e homens répteis de inigualável destreza e força.
11 Centauros e minotauros juntamente pastavam com os vitelos dos da semente da mulher.
12 Sereias e tritões, dos quais um tal Dagom fora trazido à Filístia;
13 ogros e faunos, silfos e os seres da floresta escura; morcegos e lobisomens, como também os duendes e os demônios encarnados;
14 gigantes e ciclopes, titãs e heróis das guerras; sátiros e bacantes, sendo aqueles, meio humano e com os pés de bode;
15 e, por fim, alguns dos que até hoje subsistem, como os que derivaram dos ajuntamentos dos filhos dos homens com o javali selvagem.
16 Estes, os que alguns dentre nós conhecem pela alcunha de porcos.
17 Sabemos, não sem razão, da rejeição da parte dos do povo recolhido de entre os povos, de tê-los como alimento;
18 rejeitando-o como tal por força de lei, e por mandamento de seus ancestrais.
19 Notamo-los incomuns, comparados às demais espécies que nos servem de comida.
20 Bois e cabritos, e o veado campeiro: estes possuem pêlos, os quais protegem-nos do frio; sendo estes ruminantes, têm seu casco fendido em dois.
21 Galináceos cobertos de penas, e os peixes cobertos de escamas e com barbatanas.
22 Não é, pois, de se admirar que os porcos se pareçam com humanos, ou, mais detidamente, que alguns dentre estes muito se assemelhem a aqueles.
23 Rejeitai-os, portanto, como alimento, para que certas pragas se lhes não peguem em vós,
24 por que razão, pois, sofreríeis dano durável e voluntário em favor de uma satisfação efêmera, que logo passa?